Carta Mensal Março de 2026 - Cartas de Março

Marcus V. Schönhorst W. Müller
Marcus V. Schönhorst W. Müller
April 2026
8 min

É pau, é pedra...

Março costuma encerrar o verão brasileiro com um tipo particular de verdade: ciclos não pedem licença para mudar. Iniciamos março ‘a pau e pedra’, em um ritmo digno daqueles filmes de ação dos anos 80. Parece que a nostalgia cultural não ficou restrita a filmes e a cultura pop. Coincidentemente nosso trabalho aqui é transformar cotidiano em leitura de mundo, traduzir complexidades, mostrar que pau, pedra e o que parece o fim do caminho, podem se transformar em promessa de vida e que nós já vimos essa dualidade em filmes anteriores.

O cenário internacional entrou em 2026 com essa ambivalência. Há sinais de normalização onde se esperava normalização: inflação cedendo em alguns núcleos, bancos centrais tentando reabrir espaço para respirar, mercados ainda dispostos a acreditar numa travessia controlada. Ao mesmo tempo, o mundo reintroduziu seus velhos motores de instabilidade. Energia e logística voltaram ao centro do tabuleiro. O ‘Vento Ventando’ no Oriente Médio e a ‘Pedra de Atiradeira’ nas rotas estratégicas recolocaram um prêmio geopolítico no preço do petróleo, do gás e do frete. Esse tipo de choque cria uma ladeira de acontecimentos. Primeiro entra no custo. Depois contamina expectativas.

Essa ciranda encontra a política monetária global. O Federal Reserve segue dividido, e isso impacta expectativas. Quando o comitê não oferece direção uníssona, o mercado passa a viver de “dados do mês”, de probabilidades recalculadas a todo tempo, de narrativas que mudam conforme leitura dos dados. A Europa, por sua vez, permanece particularmente exposta a choques de energia. Mesmo após esforços de diversificação, o continente ainda reage com intensidade quando o custo energético muda de patamar. Soma-se a isso um pano de fundo sociopolítico mais tenso com protestos, fricções identitárias, disputas sobre migração e segurança, que limita margens de manobra e aumenta o risco de execução de políticas públicas.

Há algo de familiar nesse conjunto. Não é que a história econômica se repete, mas ela costuma rimar. O mundo já passou por inúmeros choques de petróleo, guerras por procuração, conflitos abertos, tensões tecnológicas e disputas por rotas. O front ucraniano permanece como uma guerra no coração do continente europeu; Taiwan continua sendo um eixo de reorganização tecnológica; e o Oriente Médio volta a ditar parte do custo do capital global. Se, culturalmente, vivemos uma nostalgia dos anos 70, 80 e 90 com uma série de remakes, utilização de estética retrô e roteiros revisitados, a geopolítica também parece revisitar antigos impulsos. Março, realmente começou como um daqueles filmes de ação em que a sensação de urgência vem antes da explicação.

No Brasil, a dualidade também aparece. A inflação dá sinais de desaceleração em janelas mais longas, ao mesmo tempo em que pressões pontuais voltam a aparecer no índice mensal, especialmente quando entram itens sazonais e componentes de serviços. A prévia da inflação (IPCA-15) de fevereiro subiu 0,84%, levando o acumulado em 12 meses a 4,10% (abaixo dos 4,50% anteriores), ainda acima do centro da meta. Alguns detalhes explicam parte do movimento: houve pressão relevante em itens sazonais e de serviços, com Transportes e Educação entre os principais vetores, típicos desse período do ano. Esse contraste pede leitura técnica e temperança. Em um país com memória inflacionária e prêmio de risco persistente, o Banco Central precisa olhar para além do número do mês e avaliar a propagação de segunda ordem, ou seja, como isso aparece nos serviços, como é transmitido para salários, e qual é a ancoragem das expectativas.

A Selic elevada (15%) cumpre, aqui, um papel claro: proteger a trajetória de convergência. O desafio brasileiro não se resume a inflação e atividade; ele passa pelo conhecido triângulo fiscal–institucionalidade–confiança. É isso que molda o prêmio na curva longa, influencia o câmbio e define se é o pé, é o chão ou é uma marcha estradeira.

Apesar disso, há um Brasil que ainda opera com mercado de trabalho firme: o desemprego fechou o trimestre encerrado em dezembro em 5,1%, e 2025 marcou taxa anual de 5,6%, a menor da série histórica da PNAD Contínua. Número esse que, por um lado, sustenta renda e consumo; por outro, tende a tornar a inflação de serviços mais resistente. No emprego formal, o Novo Caged registrou saldo de 112,3 mil vagas em janeiro, sinal de que a economia desacelera em ritmo gradual, sem colapso, e com inércia de renda ainda presente.

O PIB de 2025 cresceu 2,3%, o resultado mais fraco desde a pandemia, com um quarto trimestre praticamente estável, crescendo 0,1% no trimestre contra o anterior, na leitura que ganhou espaço no noticiário econômico. A composição do crescimento também ajuda a entender o desenho: a agropecuária avançou com força (11,7%), enquanto serviços cresceram de forma bem mais modesta (1,8%) e a indústria (1,4%) contribuiu sem entusiasmo. O retrato é coerente com juros altos: investimento e consumo perdem tração, e o crescimento se apoia mais em setores específicos do que em uma expansão ampla e coordenada.

Pois bem, é exatamente nessa fronteira, entre ‘paus e pedras’, que a alocação patrimonial encontra seu principal sentido. Em ambientes de incerteza nosso dogma é constância. Num retrato onde a grande movimentação do mercado acionário brasileiro se deu pela entrada de capital estrangeiro, é essencial nos colocarmos na perspectiva do "gringo". Ainda que a nossa megalomania nos faça enxergar por um funil, os resultados obtidos pelos gestores ex-long only no Brasil evidencia o que o investidor comum está sentindo a muito tempo, seu investimento não rende.

Ao adicionarmos essa visão na equação, temos evidências bastante claras de que pouco importa o rumo da eleição brasileira em detrimento ao movimento de rotação de ativos, saindo da bolsa americana e do dólar e indo, principalmente, para mercados emergentes que são expostos a teses adjacentes ao desenvolvimento da IA. Por isso, ter um plano de gestão patrimonial é uma escolha de engenharia e arquitetura. É como o projeto da casa: a dualidade e fluidez do mundo e do cotidiano não devem impedir a marcha do seu progresso.

Dentro de casa, nossas carteiras refletem esse dogma, renda fixa ainda é relevante, ainda que vértices mais curtos nos prefixados sejam nossa preferência. Além disso, vemos um cenário menos favorável a crédito privado, já que as taxas dos chamados "high grade", com alta qualidade de crédito, estão amassadas. Estamos mais otimistas com a renda variável doméstica, num compasso de espera pela continuidade do fluxo de capital estrangeiro, corte de juros e, quem sabe, notícias pró mercado vindo das eleições. Mas no Brasil, esse cenário político fica mais turvo e movimentos relevantes quase sempre dependem do alinhamento entre fiscal, curva de juros e o já mencionado do fluxo estrangeiro. Por isso, quando há exposição, ela precisa ser inteligente, calibrada por perfil e horizonte, sem que nos tornemos reféns de uma promessa histórica de mudança estrutural.

Falando no exterior, diminuímos nossa exposição aos Estados Unidos, cuidando para que o câmbio não seja um desgosto. A política de um Dólar mais fraco é uma hipótese plausível, porém em cenário de stress, o dólar costuma reagir rápido. Nossa decisão é governar esse risco, não apostar nele.

O ouro se encaixa na mesma lógica. Tirando o viés de fim do mundo que as vezes o ouro recebe, enxergamos ele como reserva de estabilidade quando energia, geopolítica e um pouco de caos reduzem o conforto estatístico de carteiras tradicionais. Uma dose pequena cumpre seu papel sem capturar o portfólio.

Realmente março nos trouxe águas que nos fazem refletir internamente: a vida é feita de opostos convivendo. Pedra e caminho, fim e começo, tensão e promessa, tédio e excitação. A economia também. O papel da Ascenda não é remover essa dualidade do mundo. É impedir que ela vire ansiedade na vida dos nossos clientes. Parte importante do retorno de longo prazo nasce de virtudes simples: permanecer no plano, evitar decisões emocionais, rebalancear com disciplina, respeitar o horizonte temporal. É um processo financeiro que protege não só o patrimônio, como o cotidiano e a sanidade de todos, do João ao José.

Março abriu o ano com sinais contraditórios, como costuma acontecer quando um ciclo tenta se encerrar e outro tenta nascer. Cuidado com a prata brilhando, alguns ruídos são passageiros; outros têm potencial de alterar o custo do capital por mais tempo. Não se preocupa com a “Matita-Pereira do mercado”, seguimos atentos ao que move preços e atitudes, seguimos comprometidos com o que o cliente mais busca em meio ao noticiário em permanente estado de alerta: tranquilidade, confiança e previsibilidade, sustentadas por método.

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Marcus V. Schönhorst W. Müller
CEO, Ascenda Investimentos