
Março terminou lembrando ao mercado uma verdade antiga: há momentos em que balanços, múltiplos, projeções de inflação e curvas de juros deixam de ser suficientes para explicar o preço dos ativos. Há meses em que o custo do capital volta a depender de rotas marítimas, energia, geopolítica e da capacidade (ou incapacidade) do mundo de manter aberto aquilo que parecia garantido.
Se fevereiro ainda carregava a esperança de uma travessia mais organizada para a economia global, março recolocou o sistema financeiro em outro tipo de terreno. Um terreno mais velho, mais físico, mais instável. O fechamento ou a severa restrição operacional do Estreito de Ormuz (chame como quiser), os ataques à infraestrutura energética do Golfo e a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã fizeram o mercado revisitar uma lógica que ele sempre prefere manter no passado: a de que choques de oferta podem voltar a ditar o comportamento da inflação, dos juros e dos ativos de risco. Essa leitura conversa diretamente com o espírito da própria carta da Ascenda, que procura mostrar que, por trás do ruído do cotidiano, existe um desenho maior sendo formado. Em março, esse desenho foi o retorno do prêmio geopolítico ao centro da macroeconomia.
O mês foi, acima de tudo, um mês de reprecificação. O petróleo subiu fortemente, as curvas de juros abriram, o dólar ganhou força em momentos específicos, as bolsas internacionais sofreram e até ativos tradicionalmente vistos como proteção tiveram desempenho inconsistente. As grandes gestoras de recursos (as famosas Assets) descrevem março quase em uníssono: um choque energético relevante, de natureza geopolítica, com efeitos imediatos sobre as expectativas de inflação e sobre a precificação da política monetária. O choque inflacionário trazido pelo petróleo e a postura mais cautelosa dos bancos centrais foram os grandes temas do mês e seguirão sendo até que haja maior clareza sobre o que realmente vai acontecer com a matriz energética mundial e, mais do que isso, sobre a velocidade com que um problema de fluxo pode virar um problema de estoques e, portanto, um problema de preço muito mais não linear.
Março foi dominado por um evento: a guerra entre Estados Unidos e Irã, com repercussões diretas sobre o estreito por onde normalmente escoa cerca de 20% da produção mundial de petróleo. A consequência imediata foi a volta da energia ao centro do tabuleiro. Não apenas como commodity, mas como variável macro determinante.
Em termos de mercado, a lógica foi clara. Primeiro veio o choque de preço. Depois, a contaminação das expectativas. É exatamente essa sequência que a Ascenda já havia captado em sua própria carta no mês passado: o custo entra pelo petróleo, pelo gás, pelo frete; depois se espalha pela inflação implícita, pelas curvas e pelo comportamento dos bancos centrais.
O pronunciamento de Trump no fim do mês, que parte do mercado esperava ser mais conciliatório, foi um balde de água fria. Em vez de sinalizar uma resolução imediata, o presidente reforçou os danos já causados ao Irã e indicou não só uma continuidade, mas uma eventual intensificação dos ataques por mais duas a três semanas. A reação dos ativos foi imediata: petróleo em alta, bolsas em queda e juros dos Treasuries (títulos públicos dos EUA) subindo. Foi, em alguma medida, a confirmação de que o mercado havia se precipitado ao precificar um fim rápido do conflito.
Ao mesmo tempo, a economia americana seguiu surpreendentemente resiliente. O payroll (dado de criação de emprego nos EUA) de março mostrou criação de 178 mil vagas, bem acima da expectativa de 59 mil, com taxa de desemprego em 4,3%. Os indicadores econômicos e de confiança também vieram em níveis melhores do que o mercado temia em parte do mês. E essa combinação de guerra e petróleo pressionando de um lado; atividade e emprego segurando do outro ajudou a evitar uma queda ainda mais intensa das ações americanas. É a tensão entre essas duas forças que talvez melhor explique o comportamento do mercado em março
Na Europa, o quadro foi mais frágil. A região continua mais exposta ao choque energético (assim como foi durante a pandemia do COVID-19), e os indicadores de sentimento e atividade perderam tração ao longo do mês. O mundo entrou em março discutindo normalização de inflação; saiu discutindo quanto dessa normalização ainda seria possível se o petróleo permanecesse por tempo suficiente em patamares tão acima da média.
O Brasil atravessou março com desempenho melhor do que o de muitos dos seus pares emergentes, mas essa resiliência não deve ser confundida com blindagem. O mercado acionário brasileiro mostrou força relativa, ainda que o Ibovespa tenha caído 0,7% no mês, o desempenho foi melhor do que o de outras bolsas, enquanto o real também apresentou resiliência frente a outras moedas emergentes, beneficiado pela posição exportadora de commodities do país. Ao mesmo tempo, o fluxo estrangeiro para a B3 ajudou a sustentar esse comportamento, já que os famosos "gringos" aproveitaram a correção recente da bolsa brasileira para aumentar suas posições, enquanto investidores locais continuaram mais defensivos e elevaram posição em caixa. Foi, em grande medida, o mesmo cenário que vimos ao longo do ano passado, onde o investidor local não conseguiu aproveitar o rali da bolsa.
Só que o pano de fundo doméstico ficou mais delicado.
O Copom iniciou o ciclo de cortes com redução de 0,25%, levando a Selic a 14,75% ao ano, o comunicado foi bastante cauteloso. O Banco Central condicionou os próximos passos à evolução do conflito no Oriente Médio, evitou se comprometer com um forward guidance mais firme e admitiu um cenário de maior incerteza. A projeção de inflação para o horizonte relevante subiu de 3,2% para 3,3%, reforçando a percepção de que o ciclo de flexibilização será mais lento e dependente do ambiente externo.
A inflação doméstica já começou a sentir esse novo mundo. O IPCA-15 de março subiu 0,44%, acima da expectativa de 0,29%, com pressão relevante de alimentos e despesas pessoais. E o choque do petróleo já motivou revisão de casas importantes, com a XP elevando sua projeção para a inflação de 2026 de 3,8% para 4,5%, enquanto o Inter revisou de 3,8% para 4,3%. A tese é simples: petróleo mais alto hoje significa combustíveis mais caros amanhã, e isso entra tanto pela inflação corrente quanto pelas expectativas.
O Focus mais recente já capturava parte desse movimento. As expectativas do mercado para 2026 apontavam IPCA de 4,31%, Selic de 12,50% e IGP-M de 3,46%, com inflação acumulada em 12 meses suavizada em 4,10%. A mensagem é clara: o mercado já começou a recalibrar o cenário.
Além disso, a dívida bruta do governo geral alcançou 79,2% do PIB em fevereiro, lembrando que o Brasil continua entrando em choques externos com uma fragilidade estrutural importante do lado fiscal. Isso não impede rallies locais, mas limita sua qualidade, sua duração e, mais do que isso, a construção de um caminho estrutural claro para o avanço da economia no país.
Abril começa menos como um mês de direção e mais como um mês de probabilidades.
Nosso cenário base continua sendo o de desaceleração global moderada, com inflação mais resistente do que o mercado esperava antes do choque energético. Em outras palavras: um mundo onde o crescimento perde força, mas os bancos centrais não conseguem reagir com a velocidade que gostariam, porque o petróleo voltou a contaminar as expectativas.
Se o conflito caminhar para um cessar-fogo relativamente breve e o petróleo voltar para níveis significativamente mais baixos (abaixo de US$ 75 o barril), o choque tende a ser absorvido como um surto inflacionário temporário, seguido de desaceleração contida. Mas, se a guerra se prolongar ou se Ormuz permanecer funcionalmente comprometido por mais tempo, o cenário se aproxima perigosamente de algo mais desconfortável: inflação pressionada com atividade enfraquecida.
No caso brasileiro, isso implica um ponto central: o ciclo de queda de juros existe, mas não é linear, nem garantido e muito menos imune ao petróleo. O mercado já entendeu isso. As expectativas para inflação subiram, o Copom pregou mais cautela e o fluxo positivo para a bolsa passou a conviver com um pano de fundo fiscal e inflacionário mais frágil.
Para a alocação, isso significa menos convicção direcional e mais disciplina. Menos aposta binária em desfechos geopolíticos e mais foco em robustez de portfólio. É um ambiente que volta a premiar qualidade de ativos, diversificação real e a capacidade de atravessar cenários distintos sem perder coerência.
Março foi um mês em que o mercado reaprendeu a diferença entre preço e estabilidade. Abril provavelmente será o mês em que ele tentará descobrir quanto dessa instabilidade é passageira e quanto dela veio para ficar. No fim, o jogo não é de quem acerta mais e sim de quem erra menos.
Em momentos como este, a tentação do mercado é correr atrás de respostas rápidas para perguntas ainda mal formuladas. A nossa escolha segue sendo outra: menos pressa, mais método; menos impulso, mais coerência. Porque patrimônio não se constrói acertando todos os movimentos mas atravessando bem os momentos em que o mundo muda de ritmo.